COP17 fecha acordo sobre biodiversidade com US$ 1,8 bilhão em promessas, mas Brasil cobra metas mais duras para 2030

Biodiversidade & Política Ambiental • ⏱️ 4 min de leitura • 30 de Outubro de 2026

A 17ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP17) terminou nesta sexta-feira (30), em Yerevan, na Armênia, com um pacote de 14 decisões e mais de US$ 1,8 bilhão em compromissos financeiros. O valor, no entanto, está muito abaixo do que os cientistas consideram necessário para salvar os ecossistemas do planeta. O Brasil, um dos países que mais insistiu em metas concretas, deixou o encontro com uma avaliação agridoce: o acordo saiu, mas a ambição ficou devendo.

A conferência, que começou no dia 19 e se estendeu além do horário previsto, foi a primeira grande revisão do Marco Global de Kunming-Montreal, adotado em 2022 com 23 metas para deter a perda de biodiversidade até 2030. Segundo dados divulgados pela Convenção sobre Diversidade Biológica (CBD), cerca de 90% dos países apresentaram metas nacionais e mais de 70% entregaram relatórios de progresso, um sinal de que a engrenagem burocrática finalmente começou a girar. O problema é que a maioria dessas metas está longe de ser cumprida. A proteção de 30% das terras e oceanos, o combate à poluição e o financiamento para países pobres seguem travados.

O impasse financeiro foi o retrato mais claro dessa distância. Governos, fundações e organizações internacionais prometeram US$ 1,8 bilhão durante a COP17, sendo US$ 500 milhões de nove organizações filantrópicas para a recuperação de espécies e US$ 60 milhões em novas contribuições para o Fundo do Marco Global de Biodiversidade, conforme números apresentados durante o evento. Parece muito, mas não é. Para restaurar ecossistemas degradados, salvar espécies ameaçadas e conservar florestas, o mundo precisa de cerca de US$ 700 bilhões adicionais por ano, segundo estimativas discutidas na própria conferência. Enquanto isso, US$ 2,4 trilhões continuam fluindo anualmente para subsídios que prejudicam a natureza, como combustíveis fósseis, agricultura intensiva e pesca predatória.

O Brasil chegou a Yerevan com três propostas na bagagem: maior sinergia entre as convenções do Rio (clima, biodiversidade e desertificação), a criação de um elemento de conectividade ecológica no programa de áreas protegidas e diretrizes para créditos de biodiversidade como fonte complementar de financiamento. Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a comitiva liderada pela coordenadora Gabrielle Soeiro concentrou esforços em garantir que o novo órgão subsidiário do Artigo 8(j) da CDB funcione de verdade, com participação direta de povos indígenas e comunidades tradicionais nas decisões sobre conhecimentos ancestrais associados à biodiversidade. Para Soeiro, a criação do órgão é um avanço histórico, mas o desafio agora é assegurar que ele não vire apenas mais uma estrutura vazia.

A COP17 acontece menos de um ano depois da COP30 do Clima, realizada em Belém, no Pará, em novembro de 2025. Naquela que foi a primeira conferência do clima na Amazônia, 195 países aprovaram o chamado Pacote de Belém, com 29 compromissos, incluindo a meta de mobilizar US$ 1,3 trilhão por ano até 2035 para ações de adaptação e mitigação. O encontro também lançou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, que já reúne US$ 6,7 bilhões e vai remunerar países que preservarem suas florestas, de acordo com o balanço oficial divulgado pelo governo brasileiro. A expectativa era de que o legado de Belém impulsionasse decisões mais ousadas na Armênia, mas o que se viu foi um acordo possível, porém modesto.

Para organizações ambientais, o saldo da COP17 é de alívio e frustração ao mesmo tempo. Catherine Weller, da Fauna and Flora, disse à agência AFP que o texto final não é empolgante nem detalhado, mas é positivo que os países tenham chegado a um consenso diante das evidências de que o mundo está fora do prazo de 2030. Já An Lambrechts, do Greenpeace International, destacou à AFP que, apesar da linguagem fraca, a conferência criou um momentum político importante para enfrentar os subsídios nocivos à natureza. O Brasil, que se consolidou como protagonista nas negociações climáticas ao sediar a COP30, agora precisa transformar o discurso em prática dentro de casa, enquanto se prepara para a COP31 do Clima, em novembro, na Turquia.

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