Radiografia de 25 Anos de Perda de Cobertura Arbórea em Moçambique (2001–2025): Uma Análise por Limiares de Densidade de Copa

RESUMO

Este estudo analisa a evolução da perda de cobertura arbórea em Moçambique ao longo de um quarto de século (2001–2025), com base nos dados globais de alta resolução do programa Global Forest Change (Hansen et al., 2013), disponibilizados pela Global Nature Watch. Foram considerados três limiares de densidade de copa (10%, 30% e 50%) por forma a captar não apenas a conversão total de floresta, mas também a degradação estrutural de formações florestais menos densas, com destaque para o Miombo. Os resultados revelam uma perda acumulada de 6.432.099 ha para o limiar de 10%, 4.843.416 ha para 30% e 2.423.458 ha para 50%. A análise temporal mostra uma tendência crescente, com picos em anos associados a eventos climáticos extremos e a dinâmicas de expansão agrícola. A comparação entre a extensão florestal remanescente estável em 2010 e a perda acumulada entre 2011 e 2025 confirma que a pressão sobre os recursos florestais se intensificou na última década, com 12,6% do stock de 2010 perdido no limiar de 30% e 16,6% no limiar de 50%. Os resultados sublinham a necessidade de políticas de ordenamento do território e de monitoramento contínuo, integrando a densidade de copa como variável crítica para a definição de estratégias de conservação e restauração.

Palavras-chave: perda de cobertura arbórea; Moçambique; desflorestamento; biomassa florestal; limiar Hansen; Miombo.

1. INTRODUÇÃO

1.1. Contextualização

A cobertura arbórea constitui um dos componentes mais dinâmicos da superfície terrestre, desempenhando funções ecológicas essenciais na regulação do ciclo do carbono, na conservação da biodiversidade e na provisão de serviços de ecossistema (Hansen et al., 2013). Em Moçambique, as formações florestais abertas e as savanas arborizadas ocupam a maior parte do território. O Miombo, formação dominada por espécies dos géneros Brachystegia, Julbernardia e Isoberlinia, constitui o tipo de vegetação mais extenso do país, cobrindo aproximadamente dois terços da área florestal natural, seguido pelas formações de mopane (Colophospermum mopane) (DINAF, 2013). Estas formações sustentam economias rurais baseadas na agricultura de subsistência, na produção de carvão vegetal e na recolha de produtos florestais não madeireiros (Chidumayo, 2013).

Nas últimas décadas, a perda de cobertura arbórea em Moçambique tem sido documentada com crescente precisão graças aos avanços do sensoriamento remoto e das plataformas de computação em nuvem. O conjunto de dados global produzido pelo programa Global Forest Change, desenvolvido pela Universidade de Maryland em parceria com o Google, permitiu mapear a perda e o ganho de cobertura arbórea a uma resolução espacial de 30 metros, com séries anuais desde 2001 (Hansen et al., 2013). A Global Nature Watch (anteriormente Global Forest Watch) disponibiliza estes dados de forma aberta e interoperável, constituindo a principal fonte de referência para a análise da dinâmica florestal em escala nacional e subnacional (Global Nature Watch, 2026).

1.2. Problema e justificativa

Apesar da disponibilidade de dados globais, persiste uma lacuna na caracterização da perda de cobertura arbórea em Moçambique quando se consideram diferentes densidades de copa. A maioria das análises concentra-se num único limiar, frequentemente 30%, o que tende a subestimar a degradação de formações florestais abertas, como o Miombo, onde a perda de biomassa pode ocorrer sem que a cobertura arbórea caia abaixo desse limiar (Hansen et al., 2013; Chidumayo, 2013). A consideração de múltiplos limiares (10%, 30% e 50%) permite distinguir entre a conversão de formações densas e a degradação estrutural de formações menos densas, oferecendo uma leitura mais completa da dinâmica florestal nacional.

Este estudo justifica-se pela necessidade de produzir uma síntese de longo prazo (25 anos) que sirva de base a políticas de ordenamento do território, à definição de prioridades de restauração e ao monitoramento dos compromissos nacionais no âmbito de instrumentos como o REDD+ e as Contribuições Determinadas Nacionalmente (NDC).

1.3. Objectivos

1.3.1. Geral:

Analisar a evolução espaço-temporal da perda de cobertura arbórea em Moçambique durante o período 2001–2025, considerando três limiares de densidade de copa (10%, 30% e 50%).

1.3.2. Específicos:

  • Quantificar a perda anual de cobertura arbórea para cada um dos três limiares;
  • Comparar a magnitude da perda entre os limiares, identificando diferenças na degradação de formações densas e abertas;
  • Avaliar a relação entre a extensão florestal remanescente estável em 2010 e a perda acumulada entre 2011 e 2025; e
  • Discutir as implicações dos resultados para a gestão florestal e as políticas de conservação em Moçambique.

2. MATERIAL E MÉTODOS

2.1. Área de Estudo

O estudo abrange a totalidade do território da República de Moçambique, situado na costa oriental da África Austral, entre as latitudes 10°27’S e 26°52’S e as longitudes 30°12’E e 40°51’E. O país possui uma área de aproximadamente 799.380 km² e uma linha de costa de cerca de 2.470 km ao longo do Oceano Índico. O clima é tropical húmido a sub-húmido, com uma estação seca bem marcada no inverno e uma estação chuvosa concentrada entre novembro e março. A geologia é dominada por bacias sedimentares meso-cenozóicas ao longo da costa, com depósitos quaternários e neogénicos que condicionam a topografia suave das planícies costeiras e interiores (Salman & Abdula, 1995).

A vegetação é caracterizada por um mosaico de savanas arborizadas, dominado pelo Miombo nas regiões norte e centro, e por formações de mopane em áreas mais secas do sul e do vale do Zambeze (DINAF, 2013). O Miombo é uma formação florestal aberta, ecologicamente adaptada a regimes de fogo e de herbivoria, que desempenha um papel central no ciclo do carbono e na subsistência das populações rurais (Chidumayo, 2013). A produção de carvão vegetal, actividade económica amplamente difundida, tem sido identificada como um dos principais factores de degradação florestal em Moçambique, particularmente nas províncias centrais (Sedano et al., 2016).

2.2. Fontes de Dados

Os dados utilizados neste estudo provêm do conjunto global de alteração da cobertura arbórea (Global Forest Change), produzido por Hansen et al. (2013) e disponibilizado através da plataforma Global Nature Watch. A base de dados organiza-se em tabelas nacionais e subnacionais, com séries anuais de perda de cobertura arbórea para múltiplos limiares de densidade de copa. Para este artigo, foram extraídos os registos relativos a Moçambique para os limiares de 10%, 30% e 50%, abrangendo o período de 2001 a 2025.

Tabela 1. Resumo das fontes de dados utilizadas neste estudo.
Fonte de Dados Período Resolução Espacial Aplicação
Global Forest Change (Hansen et al., 2013)2001–202530 mPerda anual de cobertura arbórea por limiar de densidade de copa
Global Nature Watch2000–202530 mEstatísticas nacionais e séries temporais
Limites administrativos (GADM)––Contextualização territorial

2.3. Processamento e Análise de Dados

Os dados foram extraídos da tabela Country tree cover loss do conjunto Global Forest Change, filtrando-se os registos correspondentes a Moçambique e aos limiares de 10, 30 e 50. Para cada limiar, procedeu-se à soma das perdas anuais de 2001 a 2025, obtendo-se a perda acumulada do período. Adicionalmente, calculou-se a área remanescente estável em 2010 (extent_2010_ha) e a perda acumulada entre 2011 e 2025, por forma a comparar a pressão recente com o stock florestal disponível no início da série. Os gráficos foram produzidos em formato SVG.

3. RESULTADOS

A análise da perda acumulada de cobertura arbórea em Moçambique entre 2001 e 2025 revela diferenças substanciais consoante o limiar de densidade de copa considerado. Para o limiar de 10%, a perda total ascendeu a 6.432.099 ha; para 30%, a perda foi de 4.843.416 ha; e para 50%, de 2.423.458 ha. Estes valores evidenciam que uma parte significativa da perda ocorre em formações florestais de menor densidade, que escapam às análises baseadas exclusivamente no limiar de 30% (Tabela 2).

Tabela 2. Perda acumulada de cobertura arbórea por limiar de densidade de copa (2001–2025) e área remanescente estável em 2010.
Limiar de densidade de copa Perda acumulada 2001–2025 (ha) Extensão estável em 2010 (ha) Perda acumulada 2011–2025 (ha) % do stock 2010 perdido (2011–2025)
10%6.432.09968.325.8564.565.2566,7%
30%4.843.41626.975.5113.410.27312,6%
50%2.423.45810.327.9591.713.16216,6%

A evolução anual da perda, representada na Figura 1, mostra uma tendência geral de crescimento ao longo do período, com oscilações interanuais pronunciadas. Os anos de 2016, 2017 e 2019 destacam-se como os de maior perda em todos os limiares, coincidindo com períodos de forte pressão agrícola e de eventos climáticos extremos, incluindo a seca associada ao El Niño em 2015–2016. A partir de 2021, observa-se uma persistência de valores elevados, sugerindo que a pressão sobre os recursos florestais não se reverteu.

Perda anual de cobertura arbórea em Moçambique (2001–2025) 0 100k 200k 300k 400k 500k 2001 2004 2007 2010 2013 2016 2019 2022 2025 Limiar 10% Limiar 30% Limiar 50%
Figura 1. Perda anual de cobertura arbórea em Moçambique (2001–2025) para os limiares de 10%, 30% e 50% de densidade de copa. Fonte: elaborado pelos autores com dados de Hansen et al. (2013) e Global Nature Watch (2026).

A comparação entre a extensão florestal existente em 2010 e a perda acumulada entre 2011 e 2025, representada na Figura 2, evidencia que a pressão sobre o stock florestal se intensificou na última década e meia. Para o limiar de 30%, a perda acumulada entre 2011 e 2025 (3.410.273 ha) representa cerca de 12,6% da área que se mantinha estável em 2010 (26.975.511 ha). Para o limiar de 10%, essa proporção é de 6,7%, e para 50%, de 16,6%, o que demonstra que as formações mais densas são proporcionalmente mais afetadas pela perda recente.

Destino da Cobertura Florestal de 2010 até 2025 (Limiar 30%) Permaneceu (87,4%) Perdida (12,6%) Permaneceu em 2025 (23.565.238 ha) Perdida 2011–2025 (3.410.273 ha)
Figura 2. Destino da cobertura florestal existente em 2010 (limiar de 30%): proporção que permaneceu em 2025 (87,4%) e proporção perdida entre 2011 e 2025 (12,6%). Fonte: elaborado pelos autores com dados de Hansen et al. (2013) e Global Nature Watch (2026).

4. DISCUSSÃO

Os resultados confirmam que a perda de cobertura arbórea em Moçambique é um fenómeno de larga escala e persistente, com uma tendência geral de agravamento ao longo das duas últimas décadas. A análise por múltiplos limiares revela que a maior parte da perda ocorre em formações de menor densidade (6,4 milhões de ha no limiar de 10% contra 2,4 milhões de ha no limiar de 50%), o que é consistente com a dominância do Miombo e de outras formações abertas no território nacional (DINAF, 2013). Esta constatação tem implicações metodológicas importantes: análises baseadas exclusivamente no limiar de 30% tendem a subestimar a degradação florestal, particularmente em áreas onde a remoção selectiva de biomassa não elimina completamente a cobertura de copa (Chidumayo, 2013).

A tendência crescente da perda, com picos em 2016, 2017 e 2019, está alinhada com a literatura que identifica a expansão agrícola e a produção de carvão vegetal como os principais vetores de desflorestamento e degradação florestal em Moçambique. Sedano et al. (2016), num estudo de caso na província de Tete, demonstraram que a produção de carvão pode ser um factor de degradação florestal tão ou mais importante do que a expansão agrícola em algumas áreas, dependendo do contexto local. A produção de carvão vegetal constitui uma fonte de rendimento crucial para as populações rurais, mas acarreta trade-offs significativos com outros serviços de ecossistema, incluindo a disponibilidade de lenha e de material de construção (Chidumayo, 2013). A conjugação destes factores (expansão agrícola, dependência energética da biomassa e ausência de alternativas económicas) explica a persistência e a magnitude da perda observada.

A comparação entre a área estável em 2010 e a perda acumulada entre 2011 e 2025 reforça a urgência de intervenções. Para o limiar de 30%, a perda recente equivale a 12,6% da área que se mantinha intacta no início da década passada; para o limiar de 50%, essa proporção sobe para 16,6%, indicando que as formações mais densas (e, portanto, com maior stock de carbono) estão a ser desproporcionalmente afectadas. Este padrão sugere que a degradação não se limita às formações abertas, mas avança sobre os remanescentes de floresta mais densa, com consequências significativas para o balanço de carbono nacional (Hansen et al., 2013).

Do ponto de vista das políticas públicas, os resultados apontam para a necessidade de (i) reforçar o ordenamento do território nas províncias do norte e centro, onde se concentram os maiores volumes de perda; (ii) promover alternativas energéticas ao carvão vegetal, reduzindo a pressão sobre o Miombo (Sedano et al., 2016); e (iii) integrar a densidade de copa como variável de monitoramento nos sistemas nacionais de informação florestal, por forma a captar a degradação de formações abertas. A disponibilidade de séries anuais de alta resolução, como as oferecidas pelo Global Forest Change, constitui uma base sólida para o desenho e a avaliação destas políticas (Global Nature Watch, 2026).

5. CONCLUSÃO E RECOMENDAÇÕES

Este estudo quantificou a perda de cobertura arbórea em Moçambique entre 2001 e 2025, demonstrando que o fenómeno atingiu proporções significativas em todos os limiares de densidade de copa analisados: 6.432.099 ha (10%), 4.843.416 ha (30%) e 2.423.458 ha (50%). A tendência é crescente e os picos coincidem com anos de forte pressão agrícola e de eventos climáticos extremos. A comparação entre a área estável em 2010 e a perda recente confirma que a pressão sobre os recursos florestais se intensificou, afectando de forma desproporcional as formações mais densas.

Recomenda-se: (i) a priorização de investimentos em ordenamento do território e fiscalização nas províncias com maior perda acumulada; (ii) a promoção de fontes alternativas de energia para reduzir a dependência do carvão vegetal; (iii) a integração de múltiplos limiares de densidade de copa nos sistemas de monitoramento florestal; e (iv) a realização de estudos de validação de campo que permitam calibrar os dados de sensoriamento remoto com observações locais, colmatando as limitações inerentes à classificação automática de formações florestais heterogéneas.

6. AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem à Universidade de Maryland e ao Google pela disponibilização do conjunto de dados Global Forest Change, bem como à Global Nature Watch pelo acesso à plataforma de dados e às séries estatísticas utilizadas neste estudo.

7. DECLARAÇÃO DE CONFLITO DE INTERESSES

Os autores declaram que não existem interesses financeiros concorrentes conhecidos ou relações pessoais que possam ter influenciado o trabalho reportado neste artigo.

8. REFERÊNCIAS

Chidumayo, E. N. (2013). Forest degradation and recovery in a miombo woodland landscape in Zambia: 22 years of observations on permanent sample plots. Forest Ecology and Management, 291, 154–161. https://doi.org/10.1016/j.foreco.2012.11.017

Direcção Nacional de Florestas (DINAF). (2013). Atlas do mapa de referência dos recursos florestais de Moçambique. Ministério da Agricultura, República de Moçambique. https://www.dinaf.gov.mz/

Global Nature Watch. (2026). Mozambique interactive forest map & tree cover change data. https://globalnaturewatch.org/map/country/MOZ/

Hansen, M. C., Potapov, P. V., Moore, R., Hancher, M., Turubanova, S. A., Tyukavina, A., Thau, D., Stehman, S. V., Goetz, S. J., Loveland, T. R., Kommareddy, A., Egorov, A., Chini, L., Justice, C. O., & Townshend, J. R. G. (2013). High-resolution global maps of 21st-century forest cover change. Science, 342(6160), 850–853. https://doi.org/10.1126/science.1244693

Salman, G., & Abdula, I. (1995). Development of the Mozambique and Ruvuma sedimentary basins, offshore Mozambique. Sedimentary Geology, 96(1–2), 7–41. https://doi.org/10.1016/0037-0738(94)00125-D

Sedano, F., Silva, J. A., Machoco, R., Meque, C. H., Sitoe, A., Ribeiro, N., Anderson, K., Ombe, Z. A., Baule, S. H., & Tucker, C. J. (2016). The impact of charcoal production on forest degradation: A case study in Tete, Mozambique. Environmental Research Letters, 11(9), 094020. https://doi.org/10.1088/1748-9326/11/9/094020

Como citar este artigo

ABNT (NBR 6023): GEOFLORESTA. Radiografia de 25 anos de perda de cobertura arbórea em Moçambique (2001–2025). GEOFLORESTA, Beira, 2026. Disponível em: https://geofloresta.com/. Acesso em: [data].

APA (6ª edição): GEOFLORESTA. (2026). Radiografia de 25 anos de perda de cobertura arbórea em Moçambique (2001–2025). GEOFLORESTA. https://geofloresta.com/

Vancouver (ICMJE): GEOFLORESTA. Radiografia de 25 anos de perda de cobertura arbórea em Moçambique (2001–2025). GEOFLORESTA [Internet]. 2026 [citado 2026 nov. 2]; Disponível em: https://geofloresta.com/

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