Financiamento da adaptação climática: o mundo precisa de 305 mil milhões USD por ano, mas o financiamento estagnou nos 31,4 mil milhões

Financiamento Climático • ⏱️ 13 min de leitura • 4 de Novembro de 2026

O mundo precisa de cerca de 305 mil milhões de dólares por ano para adaptar os países em desenvolvimento aos impactos das alterações climáticas. Em 2024, os fluxos internacionais de financiamento público para a adaptação, provenientes dos países desenvolvidos, situaram-se entre 28,2 e 31,7 mil milhões de dólares. A meta de triplicar esse financiamento até 2035, acordada na COP30, parece ambiciosa, mas, segundo o Adaptation Gap Report 2026 do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA), cobriria apenas 20% a 29% das necessidades reais. Para os Países Menos Desenvolvidos (PMA) e os Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (PEID), a triplicação poderia satisfazer entre 49% e 84% das necessidades. A conclusão do relatório é direta: o mundo não está pronto para se adaptar às condições climáticas atuais, muito menos ao que um overshoot de 1,5°C trará.

O relatório, intitulado Ready? Not. Climate impacts will not wait. Adaptation finance must rise, foi publicado em 2026 e é o mais recente de uma série anual que o PNUA dedica à lacuna de adaptação. A edição deste ano está organizada em três capítulos temáticos: financiamento, instituições e perdas e danos. A análise sobre financiamento, coordenada por Paul Watkiss, Blanche Butera, Nella Canales, Dipesh Chapagain e Pieter Pauw, atualiza as estimativas de necessidades, avalia os fluxos e explora o papel do financiamento privado e doméstico. O diagnóstico é claro: os fluxos crescentes, mas insuficientes, não acompanham a escalada dos impactos.

As necessidades de financiamento para a adaptação foram estimadas com base em duas linhas de evidência complementares. A primeira assenta nas Contribuições Determinadas Nacionalmente (NDC) e nos Planos Nacionais de Adaptação (NAP) submetidos pelos países. Até 31 de julho de 2026, 115 países em desenvolvimento tinham apresentado necessidades financeiras quantificadas, o equivalente a 74% das 155 partes não incluídas no Anexo I. A extrapolação para todos os países em desenvolvimento aponta para necessidades anuais entre 255 e 328 mil milhões de dólares, com uma estimativa central de 286 mil milhões. A segunda linha de evidência baseia-se em modelos sectoriais revistos por pares, que estimam os custos incrementais da adaptação. A estimativa central é de 320 mil milhões de dólares por ano para a década de 2030. A média das duas abordagens, que o relatório adopta como valor de referência, é de 305 mil milhões de dólares anuais.

Estes números dizem respeito, sobretudo, a acções públicas ou mistas: grandes infraestruturas de protecção contra cheias, protecção social adaptativa, saúde para os mais vulneráveis, agricultura climaticamente inteligente. As necessidades do sector privado, que poderiam quase duplicar o total, não estão incluídas. Uma análise indicativa do PNUA estima que a adaptação dos activos privados e a resposta ao calor no local de trabalho poderiam acrescentar cerca de 260 mil milhões de dólares por ano, elevando as necessidades totais para perto de 565 mil milhões. Esta distinção entre necessidades públicas e privadas é fundamental para compreender a lacuna e o papel de cada actor.

A distribuição das necessidades não é homogénea. Os PMA e os PEID, os países mais vulneráveis, precisam de cerca de 50 mil milhões de dólares por ano, o equivalente a 3% a 4% do seu PIB, o dobro da necessidade relativa dos países de rendimento médio-alto. Em termos absolutos, as economias menores precisam de menos dólares, mas a intensidade da necessidade em relação à riqueza nacional é muito maior. Esta realidade deve informar a forma como o financiamento é alocado e a concessionalidade dos instrumentos utilizados.

Do lado dos fluxos, o panorama é de estagnação. Os dados do Comité de Ajuda ao Desenvolvimento da OCDE, analisados pelo PNUA, mostram que o financiamento público internacional para a adaptação, atribuído aos países desenvolvidos, atingiu 31,4 mil milhões de dólares em 2024, em preços constantes de 2024, incluindo o financiamento privado mobilizado. Excluindo esse financiamento privado mobilizado, o valor situa-se em 28,2 mil milhões. O relatório da OCDE sobre os 100 mil milhões de dólares apresenta um valor ligeiramente superior, 34,7 mil milhões, devido a diferenças metodológicas e de fontes de dados. Em qualquer dos casos, o crescimento anual está muito abaixo do ritmo necessário para cumprir o Compromisso de Glasgow, que previa duplicar o financiamento para a adaptação até 2025, em relação aos níveis de 2019.

A duplicação exigiria cerca de 40 mil milhões de dólares por ano em 2025. O PNUA estima que, para atingir essa meta, seria necessário um aumento de 5,9 a 12,2 mil milhões de dólares entre 2024 e 2025, dependendo da linha de base utilizada. Os bancos multilaterais de desenvolvimento anunciaram um aumento conjunto de 10,3 mil milhões de dólares em 2025, o que poderá contribuir para o objectivo, mas o declínio da ajuda pública ao desenvolvimento bilateral, que caiu 23% em termos líquidos, pode comprometer o esforço. A meta de Glasgow continua, por isso, em risco.

O financiamento dos países em desenvolvimento para outros países em desenvolvimento está a crescer. As contribuições Sul-Sul, canalizadas sobretudo através das quotas nos bancos multilaterais, mas também através de cooperação bilateral directa, passaram de 3,9 mil milhões de dólares em 2019 para 9,6 mil milhões em 2024, quase um terço dos fluxos dos países desenvolvidos. Este dado é relevante, mas não conta para as metas actuais de financiamento dos países desenvolvidos. A arquitectura financeira está a diversificar-se, mas a responsabilidade histórica continua a recair sobre os países industrializados.

A concessionalidade dos fluxos para os países mais vulneráveis é um aspecto crítico. Em 2024, quase 90% do financiamento dirigido aos PMA e 80% do dirigido aos PEID assumiu a forma de subvenções ou empréstimos altamente concessionais. Esta proporção é vital, porque muitos países vulneráveis enfrentam restrições orçamentais severas e pressões de dívida que limitam a sua capacidade de financiar a adaptação com recursos próprios. No entanto, os empréstimos não concessionais estão a aumentar e já representam cerca de metade de todos os empréstimos, sendo concedidos principalmente por bancos multilaterais a países de rendimento médio. O custo do capital pode mais do que duplicar o custo total de um projecto, o que é particularmente problemático para infraestruturas intensivas em capital.

O financiamento privado para a adaptação está a crescer, mas parte de um nível muito baixo. Os fluxos privados mobilizados por financiamento público internacional duplicaram de 1,5 mil milhões de dólares em 2019 para 3 mil milhões em 2024. Outros 3 mil milhões de dólares são reportados globalmente, embora esta seja quase certamente uma fracção pequena do total. A maioria destes fluxos destina-se às necessidades do próprio sector privado ou a novos mercados de bens e serviços de adaptação, que serão pagos por actores dos países em desenvolvimento. Não substituem o financiamento público, nem as prioridades identificadas nas NDC e nos NAP.

A análise do PNUA a 13 veículos de financiamento privado mobilizado, que representam cerca de 3,7 mil milhões de dólares em capital fechado ou ancorado, revela que apenas 15 dos 111 investimentos analisados têm uma forte justificação climática. Setenta e cinco entregam resiliência como benefício secundário, e 21 parecem não ter foco directo na adaptação. Este resultado levanta questões sobre a atribuição e a transparência destes fluxos, que estão incluídos no novo objectivo colectivo quantificado (NCQG). A ênfase crescente no financiamento misto e na mobilização de capital privado exige sistemas de acompanhamento mais rigorosos.

O financiamento público doméstico é uma fonte potencialmente importante, mas pouco compreendida. Dos 47 países que apresentaram necessidades discriminadas por condicionalidade nas NDC e nos NAP, uma média de 18% foi classificada como incondicional, ou seja, passível de ser financiada com recursos próprios. Se esta proporção for aplicada a todos os países em desenvolvimento, equivaleria a cerca de 50 mil milhões de dólares por ano. Somando estes fluxos aos fluxos públicos internacionais, e assumindo que a triplicação é alcançada, o total seria de 154 a 189 mil milhões de dólares em 2035. Ainda assim, mais de metade das necessidades de 420 mil milhões (com inflação) ficaria por satisfazer.

A meta de triplicar o financiamento para a adaptação até 2035, adoptada na COP30 no âmbito da decisão do Mutirão Global, é um sinal político importante, mas a sua interpretação é ambígua. O texto “apela a esforços” para triplicar, uma linguagem mais fraca do que compromissos anteriores. Não especifica o que deve ser triplicado nem se a triplicação deve ser corrigida pela inflação. Dependendo da interpretação, o financiamento internacional poderia atingir 85 a 120 mil milhões de dólares por ano em 2035. Contudo, se as necessidades forem ajustadas pela inflação, passariam de 305 para 420 mil milhões. A triplicação cobriria, portanto, apenas 20% a 29% das necessidades.

Para os PMA e os PEID, o cenário é mais positivo. As necessidades anuais, com inflação, seriam de 53 a 71 mil milhões de dólares em 2035. A triplicação dos fluxos elevaria o financiamento para 35 a 44 mil milhões, cobrindo 49% a 84% das necessidades. A diferença em relação ao quadro global deve-se ao facto de os fluxos para estes países serem predominantemente concessionais e de as necessidades absolutas serem menores. Ainda assim, a concessionalidade terá de ser mantida, e os fluxos terão de aumentar de forma sustentada, uma vez que, em 2024, os níveis para os PMA ainda estavam abaixo do pico de 2022.

O relatório também analisa o financiamento transversal, que apoia simultaneamente a mitigação e a adaptação. Estes fluxos aumentaram de 6,9 mil milhões de dólares em 2019 para 11,8 mil milhões em 2024, mas apenas 15% têm a adaptação como objectivo principal. A maioria é classificada como tendo a adaptação como objectivo significativo, o que, segundo o PNUA, pode indicar sobre-reporte. A análise de projectos específicos revela que, em muitos casos, a relevância para a adaptação não é imediatamente evidente a partir dos títulos e descrições.

A integração da igualdade de género e da inclusão social (GESI) nas necessidades de financiamento é ainda desigual. Dos 112 NDC e NAP com custos analisados, 26 (21%) incluem alocações dedicadas a intervenções GESI. A proporção do financiamento total atribuída a estas actividades varia entre 0,02% (Butão) e 20,1% (Mauritânia), com uma média de 3,8%. A inclusão social é menos abordada do que o género, mas a cobertura aumentou em relação à análise de 2023. Ainda assim, não é possível determinar, apenas pela análise documental, se o aumento da linguagem GESI reflecte uma mudança genuína de abordagem ou um engagement mais superficial.

O financiamento para o nível local continua a ser um desafio. Embora mais de 100 governos e instituições tenham endossado os princípios da adaptação liderada localmente desde 2021, apenas 0,17% do financiamento climático analisado em 2016-2023 faz referência explícita a acções lideradas localmente ou pela comunidade. Cerca de 40% de todo o financiamento climático liderado localmente, em valor, não inclui qualquer foco de género. Apenas 0,7% de todo o financiamento climático reportado menciona a palavra-chave “indígena”. O fosso entre o compromisso político e os fluxos financeiros é, portanto, considerável.

O relatório conclui que escalar o financiamento para a adaptação é essencial para reduzir os riscos residuais evitáveis e as futuras perdas e danos. No entanto, a adaptação não pode eliminar todos os riscos residuais. O financiamento para responder a perdas e danos realizados é também essencial e é analisado no capítulo 4. A mensagem central é que o financiamento, embora crítico, não é suficiente por si só: as condições institucionais, a governança e a capacidade de implementação determinam se os recursos se traduzem em resiliência efectiva.

A edição de 2026 do Adaptation Gap Report deixa claro que o mundo não está pronto. Os impactos climáticos não vão esperar. O financiamento para a adaptação tem de aumentar, e tem de aumentar agora. A triplicação até 2035 é um passo, mas não resolve a equação. Para os países mais vulneráveis, cada ano de atraso significa mais perdas, mais danos e mais pessoas a viver em zonas de risco. A janela de oportunidade está a fechar-se.

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