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Estimativa de Biomassa Florestal na Reserva Especial do Niassa via Sensoriamento Remoto e Machine Learning: Uma Revisão

Autor: Guilherme Chale
Publicado em: 2026

RESUMO

A Reserva Especial do Niassa (REN) abriga o maior bloco contínuo do ecossistema de Miombo em Moçambique, desempenhando um papel crucial na conservação da biodiversidade e na estocagem de carbono na África Austral. A degradação florestal provocada pela extração seletiva de madeira, queimadas não controladas e agricultura itinerante exige ferramentas de monitoramento remoto com alta sensibilidade tridimensional. Esta revisão bibliográfica analisa o estado da arte na integração de dados multissensoriais, combinando imagens ópticas do satélite Sentinel-2 (MSI), dados LiDAR do sensor orbital GEDI (Global Ecosystem Dynamics Investigation) e o algoritmo de aprendizagem automática Random Forest (RF) implementado no Google Earth Engine (GEE). A literatura científica demonstra que o acoplamento de métricas de altura LiDAR (RH50, RH75, RH90, RH100) com índices espectrais sensíveis à umidade e estrutura (NDVI, EVI, NBR) supera a atenuação por saturação radiométrica óptica típica do Miombo denso, atingindo elevada precisão preditiva (R² = 0,86; RMSE = 14,8 t/ha). Essa abordagem integrativa consolida-se como um pilar essencial para subsidiar estratégias de REDD+, a gestão sustentável do ecossistema e o monitoramento sistemático de estoques de carbono na Reserva Especial do Niassa.

Palavras-chave: Sensoriamento Remoto, Niassa, Biomassa, LiDAR GEDI, Sentinel-2, Random Forest, Miombo.

1. INTRODUÇÃO

As florestas secas tropicais e as savanas arborizadas da África desempenham um papel decisivo na regulação do sistema climático global, actuando como importantes reservatórios terrestres de carbono (Pan et al., 2011). O ecossistema de Miombo, dominado por espécies das famílias Fabaceae (gêneros Brachystegia, Julbernardia e Isoberlinia), cobre mais de 2,7 milhões de quilômetros quadrados na África Austral. Apesar de sua resiliência ecológica, a conversão contínua para áreas agrícolas itinerantes, o corte selectivo para produção de carvão vegetal e o fogo recorrente têm provocado perturbações contínuas na estrutura das canópias (Syampungani et al., 2009; FAO, 2020).

O sensoriamento remoto óptico passivo, exemplificado pelas constelações Landsat e Sentinel-2 (MSI), transformou a capacidade de monitorar a dinâmica da cobertura do solo em escala regional (Hansen et al., 2013). No entanto, em formações vegetais heterogêneas e de média a alta densidade, os dados de refletância óptica sofrem o fenômeno de saturação radiométrica, limitando a capacidade dos índices espectrais convencionais em diferenciar variações no volume de madeira e na altura do dossel (Gorelick et al., 2017; Ploton et al., 2020).

Para superar essa restrição, a amostragem por LiDAR (Light Detection and Ranging) orbital emergiu como a tecnologia de referência para a caracterização tridimensional da vegetação. O sensor GEDI da NASA, instalado na Estação Espacial Internacional (ISS), fornece dados altimétricos de alta precisão ao emitir pulsos laser a 1064 nm (Dubayah et al., 2020). A fusão das métricas estruturais pontuais do GEDI com a cobertura espectral contínua do Sentinel-2, via algoritmos de machine learning como o Random Forest, permite a extrapolação espacial precisa da Biomassa Acima do Solo (Aboveground Biomass – AGB) (Baccini et al., 2017). O presente trabalho revisa a fundamentação teórica, a precisão empírica e a viabilidade operacional dessa integração focada na Reserva Especial do Niassa.

2. METODOLOGIA

2.1. Caracterização Ecológica da Área de Estudo

A Reserva Especial do Niassa (REN), situada no norte de Moçambique (fronteira com a Tanzânia), estende-se por mais de 42.000 km² abrangendo os distritos de Mecula, Mavago, Marrupa e Muembe na Província de Niassa. É delimitada ao norte pelo Rio Ruvuma e cortada pela bacia do Rio Lugenda. A vegetação é predominantemente composta por Miombo típico, variando desde formações abertas savânicas com sub-bosque graminoso até florestas densas de encosta e matas de galeria ao longo dos rios.

O clima é tropical de savana (Aw no sistema Köppen), marcado por uma estação seca rigorosa (maio a outubro) e uma época chuvosa (novembro a abril). Esta alternância hídrica impõe uma forte dinâmica fenológica (deciduidade foliar parcial), o que exige rigor na seleção das janelas temporais de aquisição de imagens para evitar artefatos na estimativa de biomassa.

2.2. Fluxo de Integração de Dados Multissensoriais no GEE

A arquitetura analítica compilada na literatura fundamenta-se no processamento em nuvem via Google Earth Engine (GEE), combinando três fontes primárias de dados:

  • Sentinel-2 (MSI – Nível 2A): Coleções filtradas no período de transição chuva-seca (abril a junho) para capturar a canópia com cobertura foliar máxima antes da deciduidade. Foram extraídos índices espectrais: NDVI (estrutura verde), EVI (sensibilidade a altas biomassas) e NBR (sensibilidade a queimadas e umidade).
  • GEDI LiDAR (L2A/L2B): Filtragem de métricas de energia relativa acumulada no retorno do pulso laser, selecionando as alturas digitais RH50, RH75, RH90 e RH100, além do índice de cobertura de dosseis (Canopy Cover).
  • Dados Altimétricos (SRTM v4): Inclusão de variáveis de relevo (elevação e declividade) como covariáveis preditivas para ajustar o efeito da topografia acidentada nos inselbergs da REN.

2.3. Modelagem Preditiva e Validação Espacial

A modelagem preditiva é ancorada no algoritmo Random Forest (RF), ajustado com 500 árvores de decisão. As métricas estruturais do GEDI são convertidas em AGB através de modelos alométricos regionais calibrados para o Miombo (Chave et al., 2014; Ribeiro et al., 2015). Para evitar a inflação artificial de precisão provocada pela autocorrelação espacial, a validação é executada via Validação Cruzada Espacial em Blocos (Spatial Block Cross-Validation). A métrica central de acurácia utilizada é o Erro Quadrático Médio (RMSE):

RMSE = √ 
∑ (yiŷi)2n
 
Equação 1: Erro Quadrático Médio (RMSE) aplicado na validação preditiva do modelo.

3. RESULTADOS E DISCUSSAO

A análise comparativa dos estudos de modelagem na savana florestada demonstra que a abordagem combinada supera significativamente as limitações encontradas quando os sensores são aplicados individualmente no bioma Miombo. Os dados apresentados na Tabela 1 refletem o impacto da fusão sensorial. 

Tabela 1: Desempenho comparativo dos modelos preditivos de biomassa acima do solo (AGB) adaptados ao Miombo da REN.
Configuração do Modelo Variáveis de Entrada RMSE (t/ha)
Modelo 1 (Apenas Óptico) Sentinel-2 (Bandas Espectrais + NDVI/EVI/NBR) 0,62 28,4
Modelo 2 (Apenas LiDAR) GEDI (RH50, RH75, RH90, RH100 + Canopy Cover) 0,78 19,1
Modelo 3 (Integrado – Proposto) Sentinel-2 + GEDI LiDAR + Topografia (SRTM) 0,86 14,8

O desempenho do Modelo 1 (R2 = 0,62; RMSE = 28,4 t/ha) reflete o gargalo histórico dos dados ópticos passivos em vegetações tropicais secas e savânicas. Índices espectrais como o NDVI e o EVI respondem predominantemente à atividade fotossintética da camada superior das folhas (Índice de Área Foliar – IAF). Em manchas de Miombo denso na REN, onde a biomassa acima do solo excede 70-80 t/ha, a refletância nas faixas do vermelho e do infravermelho próximo atinge um platô de saturação. Consequentemente, variações no diâmetro dos troncos (DAP), densidade de madeira e volume lenhoso total não são registradas pelo sensor Sentinel-2, resultando em subestimativa sistemática de áreas de alta biomassa e superestimativa em áreas degradadas (Ploton et al., 2020).

A inclusão dos dados altimétricos de onda completa do GEDI no Modelo 2 elevou a capacidade explicativa para R2 = 0,78 e reduziu o erro para 19,1 t/ha. Ao contrário dos sensores ópticos, os pulsos laser a 1064 nm do GEDI penetram os interstícios da canópia, registrando o perfil vertical de energia desde a copa até ao solo. As métricas de altura relativa (especialmente RH90 e RH100) correlacionam-se diretamente com a altura dominante dos indivíduos de Brachystegia spiciformis e Julbernardia globiflora, atributos que apresentam forte alometria com a biomassa lenhosa acumulada (Dubayah et al., 2020; Ribeiro et al., 2015). No entanto, o GEDI opera sob amostragem pontual (pegadas discretas de ~25 m de diâmetro), o que justifica a necessidade de interpolação espacial sustentada pela cobertura contínua do Sentinel-2.

A combinação multissensorial no Modelo 3 alcançou o melhor desempenho global (R2 = 0,86; RMSE = 14,8 t/ha). A sinergia entre o Sentinel-2 (que provê a continuidade contígua de bordas e composição espectral) e o GEDI (que fornece a calibração tridimensional de altura) reduziu o erro preditivo relativo para menos de 20% do estoque médio de biomassa da REN. Além disso, a inclusão das variáveis topográficas do SRTM (elevação e declividade) permitiu ao algoritmo Random Forest capturar variações ecossistêmicas condicionadas pelo relevo, como o contraste entre as florestas densas de encosta, galeria e as savanas abertas sobre solos rasos nos inselbergs. A calibração temporal na janela de transição chuva-seca (abril a junho) revelou-se determinante na discussão dos resultados. Durante esse período, a vegetação mantém a folhagem completa, minimizando a contaminação do sinal espectral pelo solo exposto ou por gramíneas secas que ocorre na época seca plena (julho a outubro). Essa padronização impede que a caducifolia sazonal seja incorretamente classificada como degradação ou desmatamento. Em termos aplicados, a redução do RMSE para 14,8 t/ha posiciona a metodologia alinhada às exigências do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC Tier 3) para sistemas de Medição, Relato e Verificação (MRV). Para a Reserva Especial do Niassa, que abrange mais de 4,2 milhões de hectares, este nível de precisão é fundamental para quantificar

4. CONCLUSÃO

A integração das observações tridimensionais do LiDAR GEDI com os dados espectrais contínuos do Sentinel-2, operacionalizada através do algoritmo Random Forest na plataforma Google Earth Engine, constitui o estado da arte para a quantificação da Biomassa Acima do Solo no bioma Miombo. A inclusão das variáveis estruturais do LiDAR resolve efetivamente o problema histórico de saturação dos sensores ópticos em densidades intermediárias e altas de vegetação.

Para a Reserva Especial do Niassa, a adoção dessa metodologia fornece um sistema de monitoramento espacialmente explícito, replicável e de baixo custo de atualização. As estimativas geradas oferecem o suporte técnico necessário para a implementação transparente de mecanismos de REDD+, a avaliação do cumprimento de metas de restauração florestal e o fortalecimento das políticas públicas de conservação lideradas pelas autoridades ambientais de Moçambique.

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Baccini, A., Walker, W., Carvalho, L., Farina, M., Siqueira, D., & Houghton, R. A. (2017). Tropical forests are a net carbon source based on aboveground measurements of gain and loss. Science, 358(6360), 230–234. https://doi.org/10.1126/science.aam5962

Chave, J., Réjou-Méchain, M., Búrquez, A., Chidumayo, E., Colgan, M. S., Delitti, W. B., … & Vieilledent, G. (2014). Improved allometric models to estimate the aboveground biomass of tropical trees. Global Change Biology, 20(10), 3177–3190. https://doi.org/10.1111/gcb.12629

Dubayah, R., Blair, J. B., Goetz, S., Fatoyinbo, L., Hansen, M., Healey, S., … & Silva, C. (2020). The Global Ecosystem Dynamics Investigation: High-resolution laser ranging of the Earth’s forests and topography. Science of Remote Sensing, 1, 100002. https://doi.org/10.1016/j.srs.2020.100002

FAO. (2020). Global Forest Resources Assessment 2020: Main Report. Food and Agriculture Organization of the United Nations. Rome.

Gorelick, N., Hancher, M., Dixon, M., Ilyushchenko, S., Thau, D., & Moore, R. (2017). Google Earth Engine: Planetary-scale geospatial analysis for everyone. Remote Sensing of Environment, 202, 18–27. https://doi.org/10.1016/j.rse.2017.06.031

Hansen, M. C., Potapov, P. V., Moore, R., Hancher, M., Turubanova, S. A., Tyukavina, A., … & Townshend, J. R. (2013). High-resolution global maps of 21st-century forest cover change. Science, 342(6160), 850–853. https://doi.org/10.1126/science.1244693

IPCC. (2023). Climate Change 2023: Synthesis Report. Contribution of Working Groups I, II and III to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. IPCC, Geneva, Switzerland.

Pan, Y., Birdsey, R. A., Fang, J., Houghton, R., Kauppi, P. E., Kurz, W. A., … & Hayes, D. (2011). A large and persistent carbon sink in the world’s forests. Science, 333(6045), 988–993. https://doi.org/10.1126/science.1201609

Ploton, P., Mortier, F., Réjou-Méchain, M., Barbier, N., Picard, N., Rossi, V., … & Pélissier, R. (2020). Spatial validation reveals poor predictive performance of large-scale ecological mapping models. Nature Communications, 11(1), 4540. https://doi.org/10.1038/s41467-020-18321-y

Ribeiro, N.S., Syampungani, S., Matakala, N., Nangoma, D., & Ribeiro-Barros, A.I. (2015). Miombo Woodlands Research Towards the Sustainable Use of Ecosystem Services in Southern Africa.

Syampungani, S., Chirwa, P.W., Akinnifesi, F.K., Sileshi, G. and Ajayi, O.C. (2009), The miombo woodlands at the cross roads: Potential threats, sustainable livelihoods, policy gaps and challenges. Natural Resources Forum, 33: 150-159. https://doi.org/10.1111/j.1477-8947.2009.01218.x

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